Há mais de 50 anos, a Casa fundada por Irmã Serafina Cinque acolhe gestantes, doentes e quem chega de longe sem ter onde ficar. A história de uma enfermeira, parteira e missionária que se tornou Venerável — e da obra que ela deixou de pé.
Irmã Serafina Cinque (1913–1988). Fonte da imagem a definir — pedir original à Casa ou à Congregação.
Filha de imigrantes italianos que trocaram a borracha pelo cacau no interior do Amazonas, Noeme Cinque nasceu em Urucurituba em 1913 — e passaria a vida cuidando de quem a Amazônia esquecia.
Educada em Manaus, tornou-se professora aos 21 anos e lecionou em comunidades ribeirinhas do interior. A Segunda Guerra trouxe perseguição às famílias de origem italiana e alemã na região — foi nesse período difícil que Noeme assumiu, ainda jovem, o cuidado dos irmãos mais novos.
Em 1946, aos 33 anos, ingressou na Congregação das Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo, recém-chegada de Wichita, nos Estados Unidos. No noviciado recebeu o nome de Irmã Serafina. Nos vinte anos seguintes, atuou como educadora e superiora em diversas comunidades da Amazônia — Coari, Codajás, Manacapuru — até se dedicar, em Olinda do Norte, ao trabalho de parteira e atendente de enfermagem, muitas vezes a única assistência de saúde disponível para quilômetros de floresta.
No início dos anos 1970, foi enviada a Altamira para a Pastoral Social da Prelazia do Xingu. A abertura da rodovia Transamazônica trazia um fluxo intenso de famílias para a região — e o hospital da cidade não dava conta de atender as gestantes e os doentes que chegavam de todo o interior. Irmã Serafina passou a acolhê-los no ambulatório da paróquia, uma pessoa de cada vez, até que a acolhida virou obra.
O rio Xingu e a estrada Transamazônica marcam o mapa da missão de Irmã Serafina — da Amazônia profunda até a casa que carrega seu nome.
Noeme Cinque nasce no interior do Amazonas, filha de imigrantes italianos que se estabeleceram na região durante o ciclo da borracha.
Ingressa na Congregação das Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo e recebe o nome de Irmã Serafina.
Décadas como diretora, superiora e formadora em comunidades do interior — até se dedicar à assistência à saúde e aos partos em Olinda do Norte.
Enviada à Pastoral Social da Prelazia do Xingu, no momento em que a Transamazônica muda o rosto da cidade.
Nasce a Casa Divina Providência, para gestantes sem lugar para ficar, e o Refúgio São Gaspar, para doentes de todas as idades.
Irmã Serafina morre em Manaus, em 21 de outubro, após enfrentar um câncer — deixando a obra em andamento.
Seus restos mortais são trasladados de Manaus para Altamira, para junto da obra que ela construiu.
O Papa Francisco reconhece suas virtudes heroicas. Irmã Serafina passa a ser chamada de Venerável, um passo antes da beatificação.
Mais de cinco décadas depois, a Casa Divina Providência e o Anexo Refúgio São Gaspar seguem recebendo quem a rede de saúde da região não alcança — gestantes, bebês e pessoas do interior em tratamento na cidade.
A rede fica na Amazônia — atende quem vem de barco, de estrada e a pé. As redes de dormir, tão comuns entre ribeirinhos e povos indígenas, contam como leito de verdade na Casa, não como improviso.
Décadas de documentação, testemunhos e livros sustentam a causa de canonização de Irmã Serafina — o trabalho de quem conheceu de perto a mulher por trás do apelido "Anjo da Transamazônica".
A Casa Irmã Serafina é uma obra social vinculada à Diocese de Xingu-Altamira, no Pará. A responsabilidade legal e o cuidado pastoral cabem hoje ao bispo diocesano, Dom Frei João Muniz Alves, OFM.
Maranhense de Santa Rita, franciscano, doutor em Teologia Moral — e o primeiro bispo diocesano da história da Igreja no Xingu.
Nascido em 1961 na localidade de Carema, no município de Santa Rita, no Maranhão, Dom João entrou na Ordem dos Frades Menores em 1984. Fez a primeira profissão religiosa em 1986, a profissão solene em 1991, e foi ordenado sacerdote em 4 de setembro de 1993.
Estudou Filosofia e Teologia no Seminário Maior Sagrado Coração de Jesus, em Teresina, e depois seguiu para Roma: licenciatura em Filosofia pela Pontifícia Universidade Antonianum e doutorado em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana. De volta ao Brasil, foi pároco em Bacabal, formador de postulantes e, entre 2007 e 2013, Ministro Provincial da Província Franciscana Nossa Senhora da Assunção (Maranhão e Piauí). Em 2014 atuou como visitador geral da custódia franciscana em Moçambique.
Em dezembro de 2015 foi nomeado pelo Papa Francisco bispo da Prelazia do Xingu, sucedendo a Dom Erwin Kräutler, e foi ordenado bispo em março de 2016. Quando o Papa extinguiu a Prelazia e criou a Diocese de Xingu-Altamira, em 6 de novembro de 2019, Dom João foi nomeado seu primeiro bispo diocesano — tomando posse em 1º de fevereiro de 2020, em Altamira.
Toda essa acolhida gera rotina: leitos, entradas e saídas, prontuários, financeiro. O Sistema Irmã Serafina foi feito para dar suporte ao dia a dia da Casa — sem tirar o foco de quem chega precisando de ajuda.